Há dias coisas estranhas aconteciam, dificultando meu trabalho. Quando se é uma investigadora da polícia, as poucas horas de sono disponíveis devem ser muito bem aproveitadas, entretanto, meu sono nunca esteve tão conturbado. Sonhava diariamente como um par de olhos azuis de um tom tão claro que jam
ais havia visto, com um fundo negro de olheiras assustadoras e uma esclera avermelhada, como olhos de uma pessoa com alergia ou irritação. O olhar me seguia aonde quer que eu fosse, lançando maldições, constrangendo-me. Parece simples, mas eu acordava com um suor pegajoso me envolvendo e o coração contraindo-se em batidas violentas, exigindo um bom banho frio para me acalmar.Naquela noite, já me preparava para o plantão da noite no meu gabinete. Uma pilha de papelada esperava para ser revisada ao lado do meu copo, algo que considerei perigoso demais. Um mero descuido e eu poderia provocar uma bela mancha.
Uma batida sonora ecoou pela minha porta.
- Laura, temos uma bela ocorrência.
- Do que se trata?
- Um estranho homícidio. Avenida das Regatas, você vem ou não?
Daniel provavelmente estava percebendo que eu andava muito cansada. Ele estava mais polido do que costumava ser, pensei. Até meu chefe sabia que as coisas não andavam bem.
Coloquei o meu cinto e a cartucheira em volta da cintura, disparando atrás dele pelos corredores da delegacia. Certifiquei-me de o colete a prova de balas estava bem ajustado, e acenei para minha parceira, Júlia, que se levantou da mesa imediatamente.
- O que houve?
- Não sei ao certo, o inspetor me disse apenas que se tratava de um homicídio peculiar.
Entramos no banco de trás da viatura, enquanto Daniel dirigia, com Jonas no banco do carona. Mais duas viaturas nos seguiam, entendi que era algo importante.
A Divisão de Homicídios da Polícia Civil de Amarílis era minha segunda casa.

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