sábado, 11 de setembro de 2010

Capítulo I - 02

A Divisão de Homicídios da Polícia Civil de Amarílis era minha segunda casa. Mas talvez esse não seja o momento adequado para falar da minha devoção pelo trabalho.
- Inspetor Daniel, por que disse que se tratava de um homicídio peculiar? - Perguntei, intrigada
- Parece que terá que ver com seus próprios olhos, Laura. - Respondeu Jonas - Eu mesmo atendi a ocorrência.
Que droga, por que Jonas tinha que se meter? Era um recém promovido muito convencido, pensei.
Chegamos ao local da ocorrência, depois de desviar loucamente do trânsito com a ajuda da sirene perturbadora. Tratava-se de uma viela escura localizada numa larga esquina da Avenida das Regatas. A tradicional fita listrada de amarelo e preto cercava o local, assim como uma série de curiosos. Daniel parou o carro bem em frente, ligando os faróis altos, devido a falta de iluminação da viela. Peguei meu bloquinho de anotações e posicionei minha mão direita sobre a arma, ainda em alerta.
- Com licença! - Exclamou Jonas, abrindo caminho entre a população.
Júlia dirigiu-se para o corpo, sua especialidade (já que era perita legista).
- Quem o encontrou? - Perguntei.
- Fui eu, senhora. - Mencionou um homem, muito sério. O reconhecia, tratava-se de um policial à paisana. - Estava voltando da casa da minha namorada, quando ouvi gritos e corri para ver o que era. Então encontrei o rapaz largado ali no beco, e chamei-os imediatamente.
- A que distância estava exatamente quando ouviu os gritos? E que tipo de gritos eram, diziam alguma coisa?
- Estava do outro lado da rua, senhora. E não, foi apenas um berro ensurdecedor.
- Não viu alguém próximo?
- Não senhora. Até estranhei, pois estava relativamente próximo. Eu deveria ter visto alguém saindo do beco, mas não vi nada.
- Estranho mesmo... - Prossegui, anotando palavras-chave. - Como se chama?
- Mário Oliveira, sou sargento da polícia militar.
- Sim, notei.
- Laura, desculpe interromper, mas você precisa ver isso.
- Um minuto, sim?
- Vamos conversar com ele enquanto isso Laura. - Comentou Daniel.
Outros 2 investigadores fotografavam as áreas ao redor do local, enquanto eu me dirigia para o rapaz morto.
- O que houve?
Fiquei impressionada ao ver aquela cena. O rapaz era jovem, provavelmente não passava dos 20 e tantos anos em decúbito dorsal, com os braços posicionados ao lado do corpo. Os pulsos estavam quebrados, como pude notar e também um pouco de livor em torno deles. Mas o que mais chamava atenção, gritantemente, era o enorme rasgo no lado esquerdo de sua garganta, que não poderia ter sido causado por nenhum instrumento perfuro-cortante que eu conhecesse. Seus cabelos castanhos estavam encharcados de sangue, devido a poça que se formou em volta dele.
- Já está começando a entrar em Rigor mortis, é melhor estender o corpo dele pra facilitar o exame. - Comentou Júlia, esticando as pernas dele.
Abaixei ao lado dela, tocando o braço do cadáver. Estava ligeiramente frio, indicando também um Algor mortis (esfriamento do cadáver).
- Há quanto tempo acha que ele morreu?
- Talvez há uma hora ou duas... Difícil determinar. Uma viatura está vasculhando as redondezas e vendo se encontra algo suspeito.
- Pobre rapaz, era bonito. - Comentei. - Tem ideia do que pode ter causado isso?
- Nenhuma, tenho que levá-lo ao laboratório para analisar melhor. Nessa escuridão não consigo ver bem.
Júlia calçou luvas antes de prosseguir e retirou uma pequena lanterna do bolso, iluminando o rosto dele. Os lábios estavam ligeiramente abertos, assim como os olhos. Com um pouco de dificuldade elas os abriu, verificando como as pupilas estavam extremamente pequenas. Peguei uma câmera e comecei a fotografar esses detalhes que ela indicava, as pupilas, o ferimento na garganta, a rigidez dos músculos e outros sinais.
- Ele tem algum documento com ele? Celular? - Perguntou um dos sargentos que auxiliavam em nossa segurança.
- Bem lembrado. - Agradeci.
Vasculhei seus bolsos e encontrei uma tímida carteira, contendo alguns trocados e cartões de crédito intactos. Fotografei, era um forte indício que não se tratava de um assalto. No bolso de trás Júlia encontrou um celular destruído, indicando que ele fora jogado de costas no chão. Achei sua identificação.

David Lourenço Reis
Natural: Amarílis - Amarílis
24/04/1988

- Apenas 22 anos, como pensei. Que pena...
Coloquei os pertences dele no tradicional saco de plástico que guardava provas, depois analisaríamos com cuidado.
- Bem rapazes, acho que já colhemos informações suficientes aqui. Ajudem a ensacá-lo, por gentileza. - Pedi.
Daniel e Jonas terminaram de conversar com o policial à paisana, voltando com algumas informações anotadas. Recolhemos o moço e decidimos voltar para a delegacia, restando ainda uma viatura no local do crime, para vasculhar as redondezas.
- E então? - Perguntou meu chefe.
- Nunca vi um ferimento como esse.
- Eu disse.
De repente tive a mesma sensação ruim que andava me acompanhando. O mesmo sentimento de medo e perseguição, como se houvesse algo terrível bem atrás de mim... Virei-me instantaneamente, com a mão sobre minha arma, ofegante. No círculo de curiosos, vagamente pensei ter visto aqueles olhos azuis malignos que me seguiam durante uma fração de segundos, mas quando pisquei, eles sumiram.
- O que foi?
- Pensei ter visto... Nada.
- Você está precisando dormir.
- Sem chances, preciso acompanhar o exame externo e interno do cadáver.
- Então precisa de uma boa dose de café.
- Bem, com isso posso concordar.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Capítulo I - 01

Coloquei o copo com suco de amora sobre a mesa de mogno. Gostava mais da cor do que do sabor, aquele vermelho tinto que tingia a língua, eu me sentia criança novamente exibindo a língua colorida no espelho.
Há dias coisas estranhas aconteciam, dificultando meu trabalho. Quando se é uma investigadora da polícia, as poucas horas de sono disponíveis devem ser muito bem aproveitadas, entretanto, meu sono nunca esteve tão conturbado. Sonhava diariamente como um par de olhos azuis de um tom tão claro que jamais havia visto, com um fundo negro de olheiras assustadoras e uma esclera avermelhada, como olhos de uma pessoa com alergia ou irritação. O olhar me seguia aonde quer que eu fosse, lançando maldições, constrangendo-me. Parece simples, mas eu acordava com um suor pegajoso me envolvendo e o coração contraindo-se em batidas violentas, exigindo um bom banho frio para me acalmar.
Naquela noite, já me preparava para o plantão da noite no meu gabinete. Uma pilha de papelada esperava para ser revisada ao lado do meu copo, algo que considerei perigoso demais. Um mero descuido e eu poderia provocar uma bela mancha.
Uma batida sonora ecoou pela minha porta.
- Laura, temos uma bela ocorrência.
- Do que se trata?
- Um estranho homícidio. Avenida das Regatas, você vem ou não?
Daniel provavelmente estava percebendo que eu andava muito cansada. Ele estava mais polido do que costumava ser, pensei. Até meu chefe sabia que as coisas não andavam bem.
Coloquei o meu cinto e a cartucheira em volta da cintura, disparando atrás dele pelos corredores da delegacia. Certifiquei-me de o colete a prova de balas estava bem ajustado, e acenei para minha parceira, Júlia, que se levantou da mesa imediatamente.
- O que houve?
- Não sei ao certo, o inspetor me disse apenas que se tratava de um homicídio peculiar.
Entramos no banco de trás da viatura, enquanto Daniel dirigia, com Jonas no banco do carona. Mais duas viaturas nos seguiam, entendi que era algo importante.
A Divisão de Homicídios da Polícia Civil de Amarílis era minha segunda casa.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010